Cuidados na hora de colocar aparelho nos dentes

Escolha de profissionais errados leva a 30% de volta a consultórios para retratamento

Vanessa Deforville Suchek e Alexandre Moro: três meses de tratamento errado (foto: Jonas Oliveira)

Em praticamente cada esquina é possível encontrar um consultório odontológico que oferece os serviços de ortodontia, a especialidade conhecida para o tratamento de dentes tortos e outros problemas relacionados ao amadurecimento da face e arco dentário. O desenvolvimento de novos materiais e da indústria nacional no setor odontológico contribuiu para a redução dos preços e para facilitar o acesso dos pacientes aos aparelhos. E junto com a oferta, cresceu também o número de tratamentos de correção que, em alguns consultórios, chega 30%. Daí a necessidade de pesquisa da qualidade do profissional.

A arquitetaVanessa Deforville Suchek é um dos exemplos desta necessidade. Prestes a se casar, ela procurou um profissional da área, cujo nome não quis mencionar. “Fui indicada por uma amiga, mas quando cheguei ao consultório estranhei o fato de no mesmo dia, após uma simples avaliação, ele já colocar as bandas e os braquetes em meus dentes”, conta. “Cheguei a procurar outros profissionais na época, mas como já estava com o aparelho na boca, ninguém quis fazer outra avaliação”, comenta.
O resumo da história de Vanessa é que em três meses, o aparelho resultou em problemas de mordida e no deslocamento dos dentes, que exigiram tratamento de um ano e meio para solucioná-los. “Mais tarde eu descobri, já com um outro profissional, que eu sequer precisaria usar aparelho e que meu problema de ATM (Articulação Temporomandibular) era resultado de estresse e que uma simples placa noturna era suficiente para resolver”, conta.

Ela conta que isso ocorreu há quase 10 anos e, que por falta de um laudo (documentação necessária para tratamentos ortodônticos) acabou desistindo de entrar na justiça. “Na época eu não consegui que nenhum profissional emitisse um laudo para mim”, se queixa. “O trabalho era tão absurdo que nenhum outro profissional queria me tratar e, para eu mudar de ortodontista, eu tive de mentir para o profissional que acabou com a minha boca, dizendo que ia mudar de cidade, para que ele liberasse a minha documentação”, lembra.

Vanessa relata que mais tarde descobriu que o dentista que colocou o aparelho fixo em seus dentes, sequer tinha a formação necessária, apesar de clinicar bem no centro da cidade em um espaço que tomava dois andares de um prédio da Avenida 15 de novembro.
Posteriormente, o problema de Vanessa foi resolvido pelo ortodontista Alexandre Moro, Doutor em Ortodontia pela Universidade de São Paulo, vice-presidente da Associação Paranaense de Ortodontia e presidente do Grupo Brasileiro de Professores de Ortodontia e Odontopediatria. Ele aconselha como primeiro passo para quem vai fazer um tratamento ortodôntico, a verificação do registro de especialista do profissional junto à Associação Paranaense de Ortodontia (APO). Outra instituição que deve ser consultada é o Conselho Regional de Odontologia (CRO).

“É importante pegar referências de um profissional junto com pessoas que já se trataram com ele, mas a consulta do registro de especialista não deve ser dispensada”, adverte. Outra questão que deve levantar suspeitas é a colocação de partes do aparelho já na primeira consulta. “Isso não deve ocorrer e é importante que o consumidor fique atento”, orienta.

Documentação da boca é o começo
O ortodontista Alexandre Moro explica que para iniciar um tratamento ortodôntico é necessário a documentação do caso, normalmente realizada por um profissional especializado em moldagem, fotografia e radiografia panorâmica da boca deste paciente. “O profissional realmente sério sabe que é necessário fazer um planejamento completo, incluindo previsão de término do tratamento”, diz.

Embora não seja possível precisar um tempo de tratamento, pois, segundo Moro, cada caso é um caso, normalmente o tempo de tratamento varia em torno de dois a três anos. “Mas há casos que podem passar de mais de cinco anos, dependendo da complexidade do ordenamento dos ossos da face e da arcada”, comenta.
Para quem já está em tratamento, Moro explica que nos casos simples de dentes tortos em aproximadamente três a quatro meses já há o início do alinhamento dos dentes.

“Não querendo ser elitista, mas normalmente mensalidades de manutenção muito baixas são cobradas por profissionais que realizam apenas a troca das borrachinhas e uma limpeza quando deveriam fazer a manutenção do aparelho”, diz. “Em cada visita mensal ao dentista, é importante que ele faça a troca do aro e, para isso, as consultas não têm como ser muito rápidas”, argumenta.

Formação — Moro comenta que, nos últimos 10 anos, cresceu muito o número de profissionais atuando na área em virtude, também, do aumento de cursos de especialização. Em Curitiba, por exemplo, até 1998 não havia mais que três cursos de Especialização em Ortodontia. Hoje são 18. Daí a necessidade de maior cuidado na hora de escolher o profissional para tratar dos problemas ortodônticos.
“O Brasil tem hoje mais faculdades de Odontologia que os Estados Unidos, o México e o Canadá juntos”, observa Moro.

As consequências de um tratamento mal feito podem variar de dores no rosto e gengivite, até a perda dos dentes e do osso em volta deles, resultando em deformidades. Segundo Moro, o índice de pacientes que procuram o seu consultório para corrigirem tratamentos mal executados chega a 30%.

Mas a principal preocupação de quem deseja corrigir os dentes com o uso de aparelhos continua sendo a estética, cerca de 60% do total. Os demais procuram o tratamento por causa de dores faciais, para evitar problemas periodontais (tecidos em volta dos dentes) e desgastes dos dentes, ou por indicação do clínico geral. Nesse universo, os adultos já representam 40%, incluindo idosos. Entre as crianças, o início do tratamento é recomendado somente a partir dos sete anos, com exceção de casos graves. (AE)

Matéria veiculada no portal Bem Paraná - http://www.bemparana.com.br/index.php?n=135113&t=cuidados-na-hora-de-colocar-aparelho-nos-dentes